domingo, 20 de janeiro de 2008

Foi tão bonito

Ela é tão sem-pretenção-de-ser-pretenciosa, sabe? Chega com cara de serena e logo dispara suavemente com um sorriso dengoso que está nervosa. A casa está cheia - como não haveria de estar? Somente com flauta, acordeon e percussão de pandeiro e tamborim de dedo a moça-mãe libera sua voz de acalanto. E é só encanto. Todos quietos, calmos, envolvidos e ao mesmo tempo assustados com a potência da calmaria.
Ouço-la para dormir e acordar. Com paz, na boa... Ela canta sobre o que desconheço, mas gosto tanto. É o senhozinho apaixonado, a senhorinha bem quista, a mulher satisfeita de amor, o amor que ameaça não chegar pra quem não deixa. Ela fala bem, fala pouco e diz somente o que precisa. Nada de acessórios, nada além do que não esperávamos.
Estou tranqüila esses dias porque consigo ouvir mais a ela que as inquietações de dentro.
Salve Mônica Salmaso, mas sem devoção demais. Ela não é disso.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Ai, meu Santo Antônio!

Hoje saí com meu irmão para comprar um microondas. Não, calma, o daqui de casa está ótimo, funciona super bem. Meu irmão é padrinho de casamento de um casal de amigos, ou melhor, de dois casais de amigos e hoje acordou atordoado para comprar o presente do matrimonio mais próximo. Existe um convite de casamento, um vestido de noiva, um terno, vestidos das madrinhas, trilha sonora, nave central e, claro, um pajem – essa é a minha figura favorita de casamentos!

Desses elementos obrigatórios, existem sempre os mais pertinentes e, em vista desses, conseqüentemente, os menos pertinentes. Os mais eu já escrevi, os menos são a cor da fita do cabelo da sobrinha, o formato da cabeça do padre e o tamanho da tromba dos ex’s. Ai ai... Sempre existe um quantum de alegria solidária e de dor de cotovelo pra esses aí. Pros outros, ou melhor, pras outras – a se excluir as casadas ou noivas com casamento marcado – há uma parcela oscilante de felicidade abnegada e outra, permanente, até o seu próprio “vos declaro marido e mulher”, de in-ve-ja.

Para o meu irmão, o que lhe arrebatava, até hoje de manhã, era o item mais famigerado do programa de casamento: a lista de presentes. Muita cautela neste momento, há itens de todos os preços a serem contemplados pelo status de cada um no contexto cerimonial? e pelo seu poder aquisitivo socialmente reconhecido (leia-se: todo mundo sabe que você pode comprar o freezer, não me venha com a torradeira!) Meu irmão é padrinho e não está desempregado, é solteiro, mora com os pais... Isso o põe em situação de “privilégio” no quesito presente. Ele não pode comprar um grill George Forman, é muito amigo do noivo. Vamos nós para a loja de eletrodomésticos comprar um forno de microondas.

Depois de sondar as opções da lista de presentes, fazer uma pesquisa de preços na internet, chorar no ouvido do vendedor, lá está meu irmãozinho passando o endereço da entrega.

- Forma de pagamento, senhor?

- À vista, no débito.

No carro, meu irmão me contou que não passou o réveillon em Salvador por conta desse presente de casamento e do próximo, como eu disse, são dois casais de amigos. Mas logo tudo vem à forra:

- Esses com certeza serão meus padrinhos quando eu casar. Eles estão vendo os presentes massas que eu tô dando.

No momento futuramente oportuno, os papéis se invertem, e meu irmão vai colocar tudo que ele – e a esposa, é claro – quiser numa página da internet. Pelo tempo que vejo que vai custar pra esse menino casar, na lista dele vai ter TV de plasma com conexão banda larga, rádio-despertador que pega todas as freqüências num raio de 17 países, louças autolimpantes e auto-aquecedoras em inox e duas passagens de ida e volta para a Bahia de Todos os Santos.

Casamento de noivo e noiva, padrinhos e noivos, mãe chorona e lenços de papel. Tudo protocolar, minha gente.

Essa ainda é uma realidade distante pra mim. Meus amigos planejam o futuro com parceiro, cônjuges e tudo mais, mas sem lista de convidados, grinaldas, conta de gás...

Não sei... Enquanto meu irmão pechinchava o melhor preço para o melhor microondas da lista, eu caminhei pela loja e descobri gosto bastante daquelas geladeiras de duas portas.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

sábado, 6 de outubro de 2007

3.



Esta semana comprei mais discos. Comprei Clara, Doces Bárbaros, Elis, Tracy, Clara, Bibi e Mercedes. Gente que ainda tem, gente que já foi... Mas essa gente toda me leva numa viagem no tempo muito engraçada. Eu os escuto e me vejo junto a uma juventude que leva essa música como gosto e bandeira, como canto e voz ao mesmo tempo. Eu tenho uma identificação anacrônica com os jovens daquele tempo. Entendo o que eles reclamam, o que buscam, o que amam e a linda falta de seus porquês. Eles parecem perguntar menos, buscam menos justificações, menos complicações, menos esforço inútil. Gastam o tempo com som de risada, som de passos companheiros, som de vozes calmas e inspiradoras, som de menos barulho por nada, som de mais sim pro tudo.
Buscam uma modificação, subversão, mudança, novidade. Mais e mais e mais e mais belezas.
Belezas completas, preenchidas de voz, de opinião, de posicionamento, de pensamento e poesia. Talvez seja o que eu mais sinta falta na juventude de hoje, ou, pelo menos, na música que a juventude de hoje faz e tem como referência: falta de beleza política.

Recomendo: Me gustan los estudiantes - Mercedes Sosa.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

2.

Não tenho nada edificante pra falar. Na verdade nem quero hoje. Hoje vou falar do Roberto Carlos.
Semana passada baixei um cd dele, o acústico, que logo que saiu eu quis comprar mas custava justamente o que eu ganhava por mês (se não gastasse nada!). Então, seis anos depois eu baixei da internet e pus pra tocar no meu carro.
Impresssionante, antes de qualquer coisa, que esse disco tem um som completamente diferente dos "especiais de fim de ano da globo" (que, vamos combinar...); mas, mais que isso, nunca tinha parado pra reparar, até porque não escuto muito, a quantidade de músicas que esse cara tem que falam de carro. É um tal de "meu calhambeque, bi bi"; "parei na contramão"; "entre no meu carro na estrada de Santos"; "por isso corro demais"... Fiquei embasbacada.
E as músicas são bem divertidas, dá vontade de cantar e, tomando um pouco da mania dele, boas demais pra se ouvir dirigindo. Ele vai falando de carro pra cá, conquistazinha pra lá, aquela coisa toda... Parece que de repente eu me torno uma super speed racer arrasadora de corações (quanta bestagem...).
Acabei ganhando intimidade com a arte de volante dele, comecei a chamá-lo de Bob Charles e joguei pro racional, claro. Fui ouvindo aquilo, afundando o pé na acelerador, cantando mais alto - 70 km/h - mais alto - 80 - e mais e mais alto - 90 - até que acabei por constatar para minha vida que Roberto Carlos, além de besta, é automobilístico.

Recomendo: Calhambeque - Roberto Carlos.


[Advertência: os textos sobre música, cinema, teatro, exposições, livros e afins não possuem pretenções críticas. Acho as críticas sobre isso uma palhaçada.]

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

1.

Estive pensando que preciso de um espaço pra desaguar tudo que minha cabeça trabalha, todo dia, o dia inteiro; a cachoeira de pensamentos análises e deinições satisfatoriamente infundadas, a enxurrada de justificações e explicações que a filosofia insinua e as idéias apaixonam. Vivo disso, às vezes pra isso: pra arranjar algum tipo de explicações que anestesie algumas angústias da mente. Da mente somente. Acho que existem outras [sim, eu classifico (e analiso)], e essas sim são difíceis de resolver. Na verdade nem acho que seja assunto da mente dar conta disso, mas ainda sim ela trabalha nisso.
Inauguro espaço de escape das idéias confusas, corridas, sem pé nem cabeça. Inauguro tempo de culto a gêmeos e Exu. Inauguro tempo e eleição da mentira mais acalentadora que minha mente puder inventar. Inauguro tempo de caça à paz apistêmica!

Chuá...